quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Duas quadras

 

Tenho feito coisas extraordinárias nos últimos tempos. Exemplo: tenho ido ao açougue. Ao mercado. À banca de jornais. Caminho duas quadras, ida e vinda, quase todo dia. Por baixo da máscara, o batom.

Mas ela, a máscara que cobre a boca, não esconde o chuchu. Esses pelos ralos e insistentes que gritam no meu pescoço e perto das orelhas: “Homem! Homem! Homem!”. E o nome desse incômodo que sinto ao vê-los? Disforia.

Olhando no espelho e pensando no
lado de "fora" desse começo de
processo de transição.

No primeiro dia que usei saia na rua, já na quarentena, me senti feliz e leve. Fazendo algo que eu amava estar fazendo, e me senti também a subversiva. Como uma florista carregando uma cesta de bombas. Uma criança gigante brincando com galáxias.

Caminhei as duas quadras, ida e vinda, sentindo olhares sobre mim. Meus ombros meio tortos. Certa timidez e certo orgulho, uma empáfia, uma ousadia, uma afronta. Eu, finalmente, a afrontosa.

Meu corpo nada feminino caminhando de saias. Meu corpo, sim, feminino, caminhando de saias. Meu corpo indo e vindo pelas ruas, mexendo as cadeiras, movendo meus músculos, pisando asfaltos, gramas, calçadas, desviando de cacas de cachorro, passando entre pessoas, meu corpo se deslocando no espaço.

Tudo tão comum. Tudo tão inacreditavelmente impossível.

Ontem, na farmácia, eu disse: “Não é ‘moço’... é ‘moça’. Eu sou travesti”. O casal cisgênero dono do estabelecimento se desculpou. Disse que não tinha notado. Eu ri. Com brincos maiores que a minha cara. Com sobrancelhas tão delineadas quanto uma montanha de um desenho de criança. Com cabelo grande, saia, blusa feminina, voz alterada, trejeitos.

“Não percebi, desculpe”, ela disse. Eu ri.

No mercado, tantos embates, tantas vezes! Tantos risos que devem ser pra mim. Tanta gente que desvia o olhar, que muda o caminho, que abre espaço para eu passar. Coisa que nunca acontecia antes, quando eu parecia cis. Tanta gente constrangida quando eu estou ao lado escolhendo um suco. Quando eu comento como está caro o açúcar.

“Está bom 650 gramas, senhor?”, perguntou o açougueiro, ao que respondi: “Ah, não, MOÇA, tira um pouquinho, por favor! Eu quero meio quilo mesmo”. E ele ficou constrangidíssimo por ter sido tratado por mim no feminino após ter se referido a mim no masculino, amolando sua comprida faca no meu coração. 

A "carinha" do meu caminho, perto do açougue,
da farmácia, do mercado

Essa estratégia uma amiga querida me ensinou. Constranger de volta. Mostrar como é ruim ser tratade num gênero que não é o seu. Quer experimentar? Fale bem alto. Quando a fila estiver bem grande. Para que todo mundo em volta escute. Para que sua fala seja um acontecimento social.

Mas essa tática usei umas três ou quatro vezes. Prefiro outra.

Descobri que dizer com carinho “Ai, moça, é no feminino, eu sou travesti!” é uma estocada ainda maior no estômago. O carinho atravessa a barriga lentamente. A palavra “travesti” é uma faca enferrujada, é uma afronta colossal.

Nem imagino o que se passa na cabeça de quem ouve.

Imagino muito do que se passa na cabeça de quem ouve.

Fico muito curiosa de saber o que se passa na cabeça de quem ouve:

“Travesti”.

“Meu Deus, ela se chamou de... TRAVESTI”. “Ele. Ela”. “Falou isso aqui, no mercado!”. “Ai, esse lugar já era, preciso procurar outro emprego”. “Bicha desgraçada, uma hora dessas você encontra o que merece”. “Ela falou o que eu ouvi?”.

Após eu dizer que sou travesti, a senhorinha da padaria calou-se, separou meus pães. Me entregou. Agradeceu. Deu bom dia sem pronomes. Sem adjetivos. Sem gêneros.

Já o açougueiro do mercado puxou conversa. Reclamou do quanto estava frio lá fora. Eu disse: “Imagino você, sempre aqui, atrás desses refrigeradores, faça chuva, faça sol, deve ser complicado”. Ele: “Pois é!”. Eu levei a carne e agradeci.

As máscaras atrapalham muito. Não sei se estão dizendo “moça” ou “moço”. Não consigo falar direito, minha voz engrossa tentando falar mais alto. Isso me dá nos nervos.

E vou e venho e atravesso com meu corpo as mesmas duas quadras. Trombando pessoas que me estranham ou cumprimentam. Eu com brincos, sapatos, blusinhas, saias, mudando o cotidiano dessas duas quadras. Pororó-pererê-pão-doce.

Quantas pessoas trans a gente vê andando no mercado? E na padaria? E no açougue? Pessoas trans circulando de dia, seja onde for, infelizmente, são ainda um acontecimento extraordinário

Outro dia comprei uma marmitex e, aguardando, ouvi xingos no restaurante. Não sabia se eram pra mim. Ao sair à porta e virar a esquina, uma enxurrada de risos. Fiquei triste e me perguntei mais uma vez por que motivo um corpo travesti é razão de piadas.

Voltando um dia as duas quadras, eu com meu filho de 11 anos cruzamos um grupo de adolescentes, skatistas, na mesma calçada. Eles riram, falaram merda uns para os outros, tiraram sarro de mim, que segui meu caminho, ao lado do meu menino, com medo. Medo que me confrontassem. Medo que levantassem os skates contra nós. Não me ameaçaram, mas eram muitos. Seriam eles uma horda de hienas rindo? Uma nuvem de gafanhotos? Seriam... talvez, somente crianças? Não sei se meu filho entendeu. Espero que não.

Meu filho, este pequeno oásis que disse que meu nome de hoje é muito mais lindo que o que eu tinha antes.

Sui, este meu nome.

Sui, esta etiqueta amarrada com lacinhos floridos a este corpo.

Sui Generis, como me cabe, porque não sei caber em nada. Porque não vou parar nem mesmo se me pararem.

Sui porque meu caminho é só de ida, na ida e na vinda.

Sui, a boneca de quem eu cuido me olhando no espelho.

Sui, comovida por estar viva aos 43 enquanto triste parte da minha gente morre assassinada antes dos 35.

Sui, esta mulher tardia, filha que meu pai renega. Sui, chamada “minha papai” por meu filho que tanto me ama.

Sui, poeta, maluquinha, compositora, desesperada, esperançosa. Estranha, calada, falante. Hesitante, atrevida. Sui Teixeira, jornalista.

Sui, enquanto gente, por essas ruas, na ida e na vinda.

Sui, assim, de repente, uma generiscida.

10 comentários:

  1. Você enriquece meu vocabulário!!!! Amei seu blog Sui! Paz e luz em sua vida,...... Seja você seja livre seja linda!

    ResponderExcluir
  2. Só queria dizer que achei lindo esse relato/poema, boa sorte pra te linda.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Puxa, obrigada, Joana! Uma noite linda e um ótimo restinho de semana pra vc!

      Excluir
  3. sua coragem me encanta tanto qto a sua destreza com as palavras. bjks carinhosas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Puxa, obrigada, de coração, querida! Vi o seu "Coisas incompreendidas" e achei coisas lindíssimas lá, nossa! Eu estou confusa com uma coisa... vc morou no CRUSP desde 1997, é? Foi quando entrei! A gente se conhece? Não achei seu nome no blog! rs

      Excluir
  4. PARABÉNS, espero que seja além de um lugar para por experiência e sentimentos que seja também um lugar para ensina que temos voz, e que sim podemos e existimos, muita Luz.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Espero que sim, queride! Espero conseguir aprender e trocar energias boas e descobertas, pela vida e por aqui também! Bjim e obrigade pelo comentário!

      Excluir
  5. Parabéns pelo texto. Parabéns pela coragem e ousadia. Por muitas Sui's por aí, pra que isso seja natural não só pra você, mas pra mim, pro outro. Queria ver mais travestis na luz do dia, pra ter mais oportunidade de apresentar às crianças, no caso, minhas filhas (tudo bem que a pandemia deu uma pausa nisso...). Acredito que quanto mais próximos ficamos mais os preconceitos se vão, mais perde-se o estranhamento (no entanto, uma parte de mim sabe que é perigoso nessa sociedade doente. Devem ser passos pensados pra se preservar). Mas não deixa de ser lindo esse seu passeio dos últimos tempos e linda a sua tranquilidade de corrigir o outro...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, querida! Obrigada pelas palavras, viu? Eu penso muito neste sentido que vc fala, de naturalizarmos mais a presença de pessoas trans nos espaços em geral. Até porque essa binariedade compulsória que vemos em todos os lugares não faz bem a ninguém. Não faz bem inclusive às mulheres cis, que são obrigadas a seguirem estereótipos de feminilidade excessiva, de magreza, de fragilidade e muitos outros que a colocam sempre em posição inferior ao masculino. Já os homens cis, por mais que sejam eles os dominadores nesse processo, também são assim por compulsoriedade. A eles são cobrados comportamentos desde criancinha e qualquer desvio mínimo é taxado e cobrado de forma muitas vezes cruel. Ou seja, é um processo em que temos de estar juntes pra atuar em uma mudança cultural e humana que tende a ser boa para todes. Um beijo grande pra vc! Espero que possamos trocar ainda mais por aqui depois.

      Excluir

Levanta essa cabeça, miga! Você não vai morrer com 35 anos!

Oi, gente, como vocês sabem, aqui é a Sui. Eu sou compositora, poeta, mas minha formação acadêmica é como jornalista, formada pela USP. Sou ...