quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Levanta essa cabeça, miga! Você não vai morrer com 35 anos!

Oi, gente, como vocês sabem, aqui é a Sui. Eu sou compositora, poeta, mas minha formação acadêmica é como jornalista, formada pela USP.

Sou uma mulher trans, travesti, e tenho 43 anos de idade.

Eu quis fazer esse texto hoje pra começar desfazer um mito, uma mentira muito perigosa que circula pela internet e pelos meios de comunicação. A informação de que a expectativa de vida das mulheres trans e travestis é de 35 anos no Brasil. Veja bem, 35 anos, que é menos da metade da média nacional, de 76,6 anos, dada pelo IBGE.

Eu quero destacar que esse dado está errado e é uma informação que tem feito muito mal a toda a comunidade trans do nosso país. Primeiro vou explicar por que ele faz mal, depois explico por que ele está errado.


Post com informação falsa sobre expectativa de vida de travestis
Imagem do site Quebrando o Tabu, replicada pela
Antra em seu Instagram, em 27.01.21, reproduzindo
a informação errada cujo crédito é dado à própria
entidade, sem citação da fonte original.

 

Estigma e baixa autoestima 

 

Esse dado faz mal porque para uma mulher trans ou travesti, achar que sua expectativa de vida é de 35 anos é uma fonte de depressão profunda e quase inviabiliza que tenhamos sonhos e queiramos construir uma vida normal.

Quem acha que vai morrer até 35 anos acredita que não vai ter tempo de construir uma família. Quem acha que vai morrer até 35 anos acha que não tem tempo suficiente para estudar e ser alguém na vida. Quem acha que vai morrer até 35 anos acha que só tem uma escolha: fazer tudo acontecer agora, pois não vai ter uma segunda chance.

Eu conheço meninas trans que desistiram de usar camisinha, pois acham que vão morrer até os 35 anos, então um risco a mais não faz diferença. Uma outra amiga trans, com 27, entrou em depressão profunda, se afundou em drogas, e quando perguntada se queria ajuda, respondeu: “Não adianta sair. Eu vou morrer com 35 anos mesmo, não faz diferença”.

Imagina o quanto isso mexe com a cabeça de cada mulher trans no nosso país! Todo dia, milhares de pessoas, principalmente trans e travestis pautando seus sonhos e suas escolhas na ideia que vão morrer em média com 35 anos! Imagina o que isso significa para os nossos relacionamentos, para a autoestima de cada uma de nós!

Por que o dado está errado?

Pois bem. Esse dado não possui uma fonte confiável. É uma informação citada por milhares de pessoas, mas não está comprovada em nenhum lugar.

Amanhã, 29 de janeiro de 2021, é o Dia Nacional da Visibilidade Trans e muitos jornais vão repetir esse dado, porque não vão fazer uma boa checagem.

Esse dado teve destaque principalmente depois que foi citado pela Antra, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, que é uma entidade muito importante e que faz uma defesa fundamental do nosso grupo, extremamente marginalizado.

Todos os anos, a Antra faz um levantamento, por meio de notícias de jornais e outras fontes informais, computando o número anual de assassinatos de pessoas trans e travestis no Brasil. Essas são informações importantíssimas, que toda a sociedade cita e que a imprensa usa.

Por esses dados sabemos que a média de idade das pessoas travestis e trans femininas assassinadas no Brasil, no ano de 2019, foi de 29,7 anos. Naquele ano, foram 124 assassinatos, a maioria deles com requintes de crueldade, porque, contra a nossa comunidade, matar não basta. É preciso mutilar, apedrejar, esquartejar, tacar fogo.

Nesse mesmo documento, a Antra cita o dado de que a expectativa de vida da população trans é de 35 anos no país. Ela explica que o dado não é preciso e cita a fonte, uma tese de mestrado do pesquisador Pedro Paulo Sammarco Antunes, denominada “Travestis Envelhecem”, realizada em 2010, e que depois virou livro.

>>> Link para a tese "Travestis Envelhecem?".

O problema é que a pesquisa, que depois se vocês quiserem podem acessar na íntegra no meu blog, não traz esse dado. Porque se trata de um dado informal, que o pesquisador cita em palestras, mas nunca colocou no papel. Ou seja, não é um dado confiável.

 

Faltam dados sobre as pessoas trans no Brasil 


O que seria preciso para sabermos a expectativa de vida da população trans no Brasil? Que a pergunta sobre o gênero das pessoas fosse incluída no censo brasileiro feito pelo IBGE. Só assim nós saberemos em que condições nós vivemos e descobriríamos a nossa expectativa de vida real, que deve ser mesmo mais baixa do que a média do país, mas não deve ser de 35 anos!

Neste momento, existe um abaixo-assinado correndo, já com 35.250 assinaturas, pedindo para que o IBGE inclua questões sobre a população LGBTQIA+ no Censo. Quantas pessoas são trans no Brasil? Quantos são homens trans? Quantes se declaram travestis e mulheres trans ao mesmo tempo? Quantos são homens trans? Quantas são as pessoas intersexo? Qual é a média de ganho de cada grupo desses e que escolaridade conseguem atingir?

>>> Link do abaixo-assinado aqui.

Perguntas importantíssimas. Resposta quase nenhuma. IBGE, abre teu olho para a população LGBTQIA+! Isso é urgente! Isso é básico para conseguirmos políticas públicas e para que parem de nos matar!

Por último, eu quero reforçar que a Antra faz um trabalho excelente, que é uma entidade muito importante para todas nós, que merece o nosso respeito, nosso apoio e nossa admiração. Se os jornalistas que citam os dados pesquisassem um pouco mais, não citariam esse dado de 35 anos como se fosse da Antra, pois a própria associação afirma que não é.

Bora viver e arrasar! 


Por último eu quero falar direto a você, minha amiga travesti, minha amiga trans.

Querida, você não vai morrer, em média, com 35 anos. Você vai viver muito, vai conquistar o seu espaço e atingir cada um dos seus sonhos. Fácil não vai ser, pois o Brasil é sim extremamente transfóbico e não nos oferece oportunidades de trabalho nem espaço em escolas e universidades.

Mas você vai conseguir e nós vamos comemorar juntas cada uma das suas conquistas. Cada travesti que consegue um emprego, cada travesti que entra numa faculdade, cada travesti que abre o seu próprio negócio é alhgo maravilhoso, algo que muda o mundo, é uma conquista de todas nós e da sociedade como um todo.

Um beijo grande a você. Levanta essa cabeça e arrasa, mulher!

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