Tenho feito coisas extraordinárias nos últimos tempos. Exemplo: tenho ido ao açougue. Ao mercado. À banca de jornais. Caminho duas quadras, ida e vinda, quase todo dia. Por baixo da máscara, o batom.
Mas ela, a máscara que cobre a boca, não esconde o chuchu. Esses
pelos ralos e insistentes que gritam no meu pescoço e perto das orelhas: “Homem!
Homem! Homem!”. E o nome desse incômodo que sinto ao vê-los? Disforia.
![]() |
| Olhando no espelho e pensando no lado de "fora" desse começo de processo de transição. |
No
primeiro dia que usei saia na rua, já na quarentena, me
senti feliz e leve. Fazendo algo que eu amava estar fazendo, e me senti
também a subversiva. Como uma florista carregando uma cesta de bombas.
Uma criança gigante brincando com galáxias.
Caminhei as duas quadras, ida e vinda, sentindo olhares
sobre mim. Meus ombros meio tortos. Certa timidez e certo orgulho, uma empáfia,
uma ousadia, uma afronta. Eu, finalmente, a afrontosa.
Meu
corpo nada feminino caminhando de saias. Meu corpo, sim, feminino,
caminhando de saias. Meu corpo indo e vindo pelas ruas, mexendo as
cadeiras, movendo meus
músculos, pisando asfaltos, gramas, calçadas, desviando de cacas de
cachorro, passando entre pessoas, meu corpo se deslocando no espaço.
Tudo tão comum. Tudo tão inacreditavelmente impossível.
Ontem, na farmácia, eu disse: “Não é ‘moço’... é ‘moça’. Eu
sou travesti”. O casal cisgênero dono do estabelecimento se desculpou. Disse
que não tinha notado. Eu ri. Com brincos maiores que a minha cara. Com
sobrancelhas tão delineadas quanto uma montanha de um desenho de criança. Com
cabelo grande, saia, blusa feminina, voz alterada, trejeitos.
“Não percebi, desculpe”, ela disse. Eu ri.
No
mercado, tantos embates, tantas vezes! Tantos risos que
devem ser pra mim. Tanta gente que desvia o olhar, que muda o caminho,
que abre espaço para eu passar. Coisa que nunca acontecia antes, quando
eu parecia cis. Tanta gente constrangida quando eu estou ao lado
escolhendo um suco. Quando eu comento como está caro o açúcar.
“Está bom 650 gramas, senhor?”, perguntou o açougueiro, ao que respondi: “Ah, não, MOÇA, tira um pouquinho, por favor! Eu quero meio quilo mesmo”. E ele ficou constrangidíssimo por ter sido tratado por mim no feminino após ter se referido a mim no masculino, amolando sua comprida faca no meu coração.
![]() |
| A "carinha" do meu caminho, perto do açougue, da farmácia, do mercado |
Essa estratégia uma amiga querida me ensinou. Constranger de volta. Mostrar como é ruim ser tratade num gênero que não é o seu. Quer experimentar? Fale bem alto. Quando a fila estiver bem grande. Para que todo mundo em volta escute. Para que sua fala seja um acontecimento social.
Mas essa tática usei umas três ou quatro vezes. Prefiro outra.
Descobri que dizer com carinho “Ai, moça, é no feminino, eu
sou travesti!” é uma estocada ainda maior no estômago. O carinho atravessa a barriga
lentamente. A palavra “travesti” é uma faca enferrujada, é uma afronta
colossal.
Nem imagino o que se passa na cabeça de quem ouve.
Imagino muito do que se passa na cabeça de quem ouve.
Fico muito curiosa de saber o que se passa na cabeça de quem
ouve:
“Travesti”.
“Meu Deus, ela se chamou de... TRAVESTI”. “Ele. Ela”. “Falou isso aqui, no mercado!”. “Ai, esse lugar já era, preciso procurar outro emprego”. “Bicha desgraçada, uma hora dessas você encontra o que merece”. “Ela falou o que eu ouvi?”.
Após eu dizer que sou travesti, a senhorinha da padaria calou-se, separou meus pães. Me
entregou. Agradeceu. Deu bom dia sem pronomes. Sem adjetivos. Sem gêneros.
Já o açougueiro do mercado puxou conversa. Reclamou do quanto
estava frio lá fora. Eu disse: “Imagino você, sempre aqui, atrás desses
refrigeradores, faça chuva, faça sol, deve ser complicado”. Ele: “Pois é!”. Eu levei a carne e
agradeci.
As máscaras atrapalham muito. Não sei se estão dizendo “moça”
ou “moço”. Não consigo falar direito, minha voz engrossa tentando falar mais
alto. Isso me dá nos nervos.
E vou e venho e atravesso com meu corpo as mesmas duas quadras. Trombando pessoas que me estranham ou cumprimentam. Eu com brincos, sapatos, blusinhas, saias, mudando o cotidiano dessas duas quadras. Pororó-pererê-pão-doce.
![]() |
| Quantas
pessoas trans a gente vê andando no mercado? E na padaria? E no
açougue? Pessoas trans circulando de dia, seja onde for, infelizmente,
são ainda um acontecimento extraordinário |
Outro dia comprei uma marmitex e, aguardando, ouvi xingos no
restaurante. Não sabia se eram pra mim. Ao sair à porta e virar a esquina, uma
enxurrada de risos. Fiquei triste e me perguntei mais uma vez por que motivo um
corpo travesti é razão de piadas.
Voltando um dia as duas quadras, eu com meu filho de 11 anos
cruzamos um grupo de adolescentes, skatistas, na mesma calçada. Eles riram,
falaram merda uns para os outros, tiraram sarro de mim, que segui meu caminho,
ao lado do meu menino, com medo. Medo que me confrontassem. Medo que levantassem
os skates contra nós. Não me ameaçaram, mas eram muitos. Seriam eles uma horda de hienas rindo?
Uma nuvem de gafanhotos? Seriam... talvez, somente crianças? Não sei se meu filho entendeu. Espero que não.
Meu filho, este pequeno oásis que disse que meu nome de hoje é muito
mais lindo que o que eu tinha antes.
Sui, este meu nome.
Sui, esta etiqueta amarrada com lacinhos floridos a este
corpo.
Sui Generis, como me cabe, porque não sei caber em nada.
Porque não vou parar nem mesmo se me pararem.
Sui porque meu caminho é só de ida, na ida e na vinda.
Sui, a boneca de quem eu cuido me olhando no espelho.
Sui, comovida por estar viva aos 43 enquanto triste parte da minha gente morre assassinada antes dos 35.
Sui, esta mulher tardia, filha que meu pai renega. Sui, chamada “minha
papai” por meu filho que tanto me ama.
Sui, poeta, maluquinha, compositora, desesperada,
esperançosa. Estranha, calada, falante. Hesitante, atrevida. Sui Teixeira, jornalista.
Sui, enquanto gente, por essas ruas, na ida e na vinda.


